11.4.06

Eu Sou o Gato de Botas

Aranha Pálida

Colocou a mão de aranha pálida de cinco patas por sobre a mesa. Teceu fina seda, nos embolou; frágil como a fumaça do cigarro que se dissipa ao vento. Moveu a boca enorme, refazendo a pergunta. Voltava em passos curtos e silenciosos, pronta para o bote. Não havia satisfeito o apetite voraz, podia ficar por dias se alimentando da resposta até saciar-se. Se tivesse hesitado por um único momento seria fruta seca em seus lábios venenosos. Mas houve um grito ou um eco, não me lembro, mas houve. Foi quando saltei por sua cabeça pois, lá atrás, na calçada, algo aconteceu e não acontecia mais. Retornei. Oito olhos oblíquos, esquerdos, a me mirar. Fiquei vago, protegendo a ausência muda que nem um gato preguiçoso. Peguei o copo de vinho. Bebi fino gole para sentir o gosto. Que pergunta afinal era aquela? Não sei, tinha desistido.

Girou. Mão pálida de cinco patas abandonada na teia. Tateei a procura de um apoio. Sentia as enzimas do veneno decompondo minhas proteínas, uma sensação estranha, porém agradável. Mas o meu salto teria sido em vão? Linhas pegajosas em minha pele, morte anunciada a cada movimento do meu corpo. Acendi outro cigarro. Se tinha que morrer que fosse com estilo. Fumei. Toda tragada era um alívio e um desespero. Sangue frio gelando as veias. O fim de traços de batom vermelho, borrando os guardanapos dobrados e amassados ao meu lado. Fim de blusa apertada com seu indignado cantarolar de sobrancelhas feitas. Então observei, não era madrugada ainda, as patas envolvendo a bolsa, e agarradas a ela, sumir na luz vacilante de um poste da rua.

O Beijo da Jibóia

Imóvel, esperando presa fácil. Sinuosa e sonâmbula, finge dormir e ignorar. Têm saltos altos camuflados na paisagem parda do sofá. Não olha nos olhos, apenas comprime as pálpebras, deixando o castanho invisível seguir a lentidão dos passos. Não veio a toa ou a passeio, sabe muito bem o que quer. Caminho consciente de que me observa. A respiração pausada, músculos relaxados e flexíveis descansam guardando forças para o grande finalle. Quando volto, renovado e eriçado pela lua, vou em sua direção. Conheço o perigo e, as vezes, isso é um vício. Me sento e a vejo se contorcer no forro numa espécie de dança primitiva. Meus movimentos são controlados, leves, não quero assusta-la. Recua, vira a cabeça e encosta no braço do sofá. Talvez de longe eu pareça um filhote, com pouco pêlo, magro e débil. De perto lhe provoco medo, sou arisco, garras firmes no copo de cerveja gelada, cigarro entre os caninos afiados. Também não vim para brincadeira e sei muito bem o que quero. Sai, balança o rabo que nem um chicote, assustando os camundongos nervosos que correm de trás da porta. Retorna, com a graça instintiva de sua natureza violenta, decidida a me engolir por inteiro, de uma só vez. Então a vejo se preparar, arma o longo corpo escuro e se enrosca. Hipnótica elegância voraz dando voltas em minhas costelas, segurando minhas patas que se deliciam no vestido manchado de tecido. Abre sua enorme boca, já não sente medo, ou pudor, só quer comer, se satisfazer. Me devora, me beija e me espreme feito pasta. Semi – vivo ainda tenho tempo de suspirar em sua pele oleosa e molhada, gelada como o copo de cerveja que soa na mesinha da sala.

Sorriso de Hiena

Vem na minha direção. Será que me viu? Daria tudo pra que não. Por que resolvi andar pelos telhados em pleno sábado a tarde? Seria melhor se fosse noite, eu não estaria tão vulnerável e talvez pudesse fugir e sumir em um beco mas. É, já viu. Caminha desajeitada, patinhas curtas e buxo cheio de filhote. Os pêlos da cabeça em pé, odor de carniça nas entranhas. Me cheira e não sente o exalar da morte. Talvez desista, mas, não, insiste. Resolve esperar e sorrir com os dentinhos ferozes.

Faz que e depois recua ofegante. Respira com a boca aberta, se sucede uma pausa, e novamente, com a língua caída para fora, engole ar. Continua. Olhar de mortalha no meu rosto, examinando a palidez da minha tez. Quer comer meus ossos, lamber minha carcaça atras de um lasco de carne. Solta algumas palavras falhas, quebradiças, interrompidas apenas pela gargalhada áspera de carpete de escritório. Usa chinelos velhos e marrons, cor de pele, sempre com uma das mãos no buxo esticado e, a outra, balançando sozinha. Se eu cometer um equivoco, viro cadáver que nem o marido ossudo. Vai roer até não sobrar nada, nem um pedacinho de pele para contar história. Me apresso. Digo sim, e não. Aguardo uma brecha, não necessito de muito espaço, sou esguio e veloz e não tenho barriga inchada.

Três passos pra trás. Já se cansou de ficar em pé. As pernas fracas tremem, está morta de vontade de sentar e descansar as cadeiras. A sigo, sempre a um braço esticado de distância. Põe o rabo no banco de concreto suspirando de tonta. Ereto, percebo um fio grisalho no cabelo da fera. Já não suporta mais os dias de Savana, de espetos de galinha com cerveja e ar de macho em sua volta. Coitada. Se não risse daquele modo, até sentiria pena da carniceira.

Coloco a mão no bolso e digo: tenho que comprar cigarros.

Borboleta no meu pensamento


Azul cintilante no meio e, na ponta, um detalhe em dourado. Globos brancos com as bordas pintadas de preto. Mexe as asas partidas enquanto fala. Bem embaixo, marca vermelha desfigurada, abrindo e fechando com as palavras. Superfície colorida de borboleta no rosto voando em meu pensamento. Tenho atenção a cada detalhe, curioso pela coisa frágil e magra que faz firulas no vento. Tem perfume de flores, frutas e menta. Boca de menta aliás. Pasta de dentes. Eriçada pela primavera quente, toca de leve em minha pele, descobrindo meus pêlos com beijos rápidos. Aperto os olhos para não ficar cego com o pólen. É escolher: beijos rápidos ou olhos abertos. Escolho o primeiro e deixo a coisinha fazer festa na minha barba.

Pousa. Fecha as asas sonolentas no bar da esquina. Fico na espreita. Vontade me meter a mão e rasga-la em três e ver tudo em pedaços. Bebe um gole no meu copo, tão pouco que nem faz diferença. Se não oferecesse mais, nem ligava, ia ficar parada no meio da cadeira plástica. Bebe de novo, outro gole na flor amarela de cevada. Treme um tanto com o vento da praia. Bêbada, só de bebericar da minha. Tenta voar e não consegue. Vai no alto e quase cai no chão sujo do lugar. Dou meu braço e a carrego.

A coloco em um muro. Ajeito as pernas finas que já não se sustentam. Sei que não esta dormindo por que os olhos permanecem abertos. Tão jovem! Deixou o casulo a pouco e já quer se misturar na selva, dando sopa pros passarinhos famintos. Mas sou caçador, comigo eles não vão se arriscar, mas se vêm uma aranha, ai já não sei. De mim não precisa ter medo. No máximo botaria as garras de fora, só pra sentir a maciez delicada da bichinha. Mas e se. Melhor não pensar, poderia machuca-la. Ferida ia cair logo no bico de um canário qualquer, o que, inevitavelmente, uma hora vai acontecer.

Uivo

Bebeu meia garrafa de vinho, antes da minha chegada. Olhos azuis – cinzentos, vermelhos de sangue. Vai na cozinha e traz uns aperitivos. Como sentado em frente a tv, perto da respiração inquieta da loba. Funga no meu pescoço com bafo quente de fêmea adulta. Mordisco um presunto, mais outro e peço o vinho. Vem desconfiada, copo na mão, caminhando com as orelhas apontadas para o teto. Acha que vou furtar suas preciosidades; um instinto lhe diz isso. Aninha-se no outro canto do sofá sem emitir um ruído. Me observa comer com voracidade como uma mãe adotiva. Lambo os lábios do presunto e do vinho e, quando me viro, ela já está com as orelhas baixas, mexendo com a pontinha da língua o céu da boca.

Desabotoa e deixa de fora. A blusa desliza no piso. Pulo em cima. Dou um salto grande, um salto maior do que dou para pegar os ratos. Me arranha, pensa que sou ameixa preta sem carroço. Mordo forte atrás da orelha, a domino. Litros pulsam nas veias, meu pequeno coração explode feito morteiro. Não dou chance para que se liberte. Se deixo, ela me marca o corpo com as unhas duras de esmalte. Vou me esfregando em seu focinho, arranco o que falta e, finalmente, uiva.

Gazela Montada

Assustada, mas nem por isso perde a pose de bailarina. Caminha nos dois dedos, dentro dos sapatos novos que couberam tão bem em seus pezinhos. Sei que vai tentar um desvio. De longe ouço o coração palpitar que nem bonequinho de pilha.. Atravessa a calçada trotando, cheia de graça e aflição. Se finjo que não vi, desaparece, se entro na frente, não sei. Decido rápido, dou dez passos mansos e paro.

Queixo empinado. Nariz minúsculo e reto. Olho preto esbugalhado me estudando. As pernas musculosas tem pressa, tá doida pra me largar ali e correr entre os arbustos. Passa um lábio no outro, ansiosa. Não sabe o que falar. As patinhas indecisas batem no chão, a mão tira o isqueiro verde da bolsa e acende um. Lhe peço, sou gato de casa, não vai fazer desfeita. Contrariada, me entrega o maço. Pego dois. Meto um no bolso do blusão. Uma pequena gota salgada de suor escorre da testa e molha sua sobrancelha. Nervosa. A barriga carnuda respira fundo. Impaciente. A cabeça procura alguma vastidão, dando voltas e voltas pela paisagem de prédios, cortinas e nuvens. Insisto. Só este cigarro não vai atrasa-la. Não nega, mas titubeia de delírio ao fitar o amarelado de meus olhos.

Penúltimo trago. Estou a um degrau abaixo na escada, bem na mira das pernas esguias e duras. Acena de mão fechada, com um riso chuvoso na cara. Da meia volta e abre a porta. Do outro lado me examina do vidro, antes de correr aliviada pra dentro de casa.

A Cauda da Raposa

Penugem vermelha balançado cauda na calçada. Aparentemente tranqüila, boceja e afaga o pequeno corpo de caçadora. Encostada no muro como se não tivesse nada pra fazer. Mas a boca molhada de saliva não finge; esta faminta. Paro a certa distância, supondo que de onde estou não vou afugenta-la. Me vê, mexe a cauda e se faz de inocente. Na meia escuridão estudo seu rosto jovem de brincos prateados e enormes. Um emaranhado de pulseiras enfeitam os braços finos. Quase nua, não parece sentir o sereno pesado da madrugada. Continua na mesma posição, permanece exata e calma, com os olhos desconfiados da minha presença.

Tomo o compasso da música e vou na sua direção. Não se move. Fica no faz de conta infantil de quem não tem história pra contar. Um minuto de silêncio. As bilhas castanhas de espanto medem minhas roupas, vão da bainha da calça amarrotada à gola da camisa preta e param no cigarro pousado no lábio. Pega um e queima com o fósforo, deixando odor de pólvora no ar. Aponto para o boteco vazio do lado oposto da rua. Agarra a bolsa do tamanho de um melão e me segue calada.

A cerveja solta a boca pintada. Diz que começou novinha, ainda criança, que a mãe a abandonou a muito tempo e o pai morreu de doença desconhecida. Tira do bolso moedas e notas amassadas de um real. Cerveja por minha conta, repito. Agradece. Explica que são tempos difíceis. Os ratos estão doentes e miseráveis, culpa do veneno e do trabalho. Os cordeiros andam em grandes bandos, sempre obedientes ao cajado do pastor. Sobram os passarinhos, que especialmente esta noite não saíram para voar. Curva o pescoço desolada, para depois mostrar os dentes fortes em um sorriso arteiro. Conta que o último namorado a largou. Era búfalo forte mas não conseguiu suportar o peso dos chifres, não entendia que já havia nascido com eles. Concordo. Sorri novamente. Desprotegida, fala que, se eu alimenta-la, vai fazer festa e arrumar uma toca pra nós dois. Me levanto, peço mais uma gelada e respondo de pé : deixa eu pensar.

Ofiófaga

Fenda negra furtiva na cadeira. Dorso curvado e tímido ocultando pensamentos desdobrados. Na mesa, premedita uma frase que não me escapa. Me preparo. Se bobear me morde a pata, só pra me aleijar. Disfarço e levo a mão na boca, de tédio. Não que tenha medo. Dou garrada na maldita se voar na minha pele. Mas prefiro observar. Meu sangue não é água pra matar a sede alheia.

Outra frase. Escorre o braço tatuado de mão afiada. A estrela incompleta e desenhada bilha com a luz azulada do néon. Ninguém se pronuncia. O beija-flor é o único que faz graça com a barriga saliente lotada de néctar. Coitado, não sabe o perigo que corre. Se voar muito perto vai ter as tripas arrancadas e enjôo por toda madrugada. O braço se retrai contrariado, na penumbra da perna grossa. Dessa vez ele escapou.

Fenda e sombra no rosto. Avança novamente. Os cotovelos rastejam morosos deixando mão dormente em forma de seta. Cinco presas cortantes de esmalte escuro procuram a serpente que dorme ao lado. Pula. Morde o ombro. A pequena se estrebucha de gozo. Solta e morde o pescoço. Os pêlos arrepiados com o gosto da carne. A outra cobra não tem chance, só resta a cabeça agora. Solta e engole aos poucos, com seu cigarro apagado no cinzeiro.

Camaleoa

Vermelha quando sorri. A tez pálida se enche do rubor que começa nas bochechas frias e chega a testa. Lábios marrons mordiscando fruta amarela. O cabelo cor de nanquim, antes castanho claro, a uma semana atrás louro e rejeitado. Fica verde, enjoada do vinho barato. Os olhos tumultuados na imagem da televisão. Estica a língua monstruosa pra beber no copo de plástico. Entorna. Loucura de bocarra aberta, envergonhada no sofá da sala, lenta e vulnerável.

Alva, esperando o sol da manhã. Embolada nas flores do lençol azul, desaparece. Treme embaixo do ventilador barulhento, mais nada acusa sua presença. Cinco laranjas e um pedaço de pão. Come, acompanhando com o olhar as moscas que zanzam nos talheres sujos. Acompanho as moscas por algum tempo e logo me desinteresso. Me detenho ao pão e aos lábios rosados e ressecados sem batom.

Quando sorri, vermelha. Blusa branca manchada de roxo. Cabelos negros de sombras úmidas que desfalece no fim da tarde. No banheiro, guarda a maquiagem dentro da bolsa. Lábios marrons sem fruta amarela. Pó para disfarçar as olheiras. Atrasada pro trabalho, cansada , esgotada do encanto do álcool e da tintura pesada no rosto. Sai em passos mansos, vira a esquina e toma o ônibus, invisível.

Orgulho Eqüino

Quer cavalgar em meus machucados, a selvagem. Depois que se soltou da cela vive esmigalhando os ossos de quem cruza o seu caminho. Usa palavreado difícil, solta relinchos pavorosos com medo de ser laçada em uma calçada qualquer. De onde tirou tamanha estupidez, não sei, talvez das revistas, é o que imagino. Bate o tamanco no chão, furiosa e ,enquanto anda, faz tempestade no concreto. Estrondo insano e sem charme. Quando corre levanta poeira e meu nariz escorre de alergia. Precisa de tudo isso? Se pergunto, finge que não entende, se me calo me pergunta o por que.

Tomada de súbito por uma vontade, bebe um drink forte, num só gole. A garganta pulsa engolindo algo mais do que conhaque. Me pede um cigarro e tosse com a fumaça. Gira em círculos perfeitos sem sair do mesmo lugar. Mesmo em silêncio, murmura gemidos de liberdade doída. Nunca vai admitir. Nem se eu chegar de mansinho vai confessar que tá perdida, abandonada, de cabeça pra baixo. Nem o segundo copo de bebida irá libertar a boca formiguenta de aflição. Vai manter a pose a noite toda, com orgulho eqüino.

Ofereço colo. Deita no ombro em desalento. Na mão ainda trás o anel de noivado e, no rosto, lágrimas miúdas florescem da lente de contato. Se fechar o olho escorre uma que vai ficar manchada na minha camisa de botão. Culpa da bebida, diz. Culpa da miopia, culpa do carburadores do carros, destes pensamentos presos que não se vão com a ventania.

Adeus Pequenos Pássaros

No início, fugiam. Agitavam as asas e voavam. Era só me espreguiçar que corriam para suas migalhas e lá comiam, mudas. Se mostrava a boca de gato pardo, fazia alvoroço. Só faltavam bater uma na outra em pleno vôo. Quando me deitava, cantavam música pra distrair minha atenção. Mas agora, vendo que ando bem alimentado, fazem festa, as pequenas. Coçam meus cabelos claros e aninham-se nas minhas patas. Chegam a encostar os bicos em meu corpo ossudo e desleixado. Se me movo rápido ainda se tremem todas, as coitadas, e voltam pras migalhas do pão fresco da manhã. Mas chegará o dia em que uma não me escapa. Sou arisco e não sou bobo. Só bater na asa que caí logo, que nem fruta madura na minha frente.

É isso. Adeus, pequenos pássaros.

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